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domingo, 18 de dezembro de 2011

Contínuo mo(vi)mento

Quanto tempo já passou?... Segundos, horas, dias, semanas, meses, anos?... Milénios?... Vive num constante ciclo de repetitivas mudanças. Agora, eternamente entediado observa o mundo a copiar-se, época atrás de época. Passado, presente e futuro misturam-se em memórias cruzadas. 
 
Por isso, o longo e distante futuro passou-se ainda agora. O distante e longo passado passou-se ainda há pouco. E, foi mesmo agora que a Coisa se aproximou dele, sorrateiramente e sossegadamente, a sugerir-lhe a eternidade. Tão simples, tão banal, como oferecer um doce a uma criança, irrecusável para um pobre velho, acabado como ele.
– Viverás para sempre. – Disse-lhe Ela. – Poderás experimentar tudo na vida, sem medos e restrições. Mas, a partir do momento que te fartares, guardarei a tua alma. – Quem é que com liberdade para viver eternamente se cansará da vida? - Pensou ingenuamente. E ingénuo, aceitou o logro da proposta.

A partir daí provou todos os tipos de prazer. Mais tarde, percebeu que podia deixar de direcionar os instintos básicos, para a concretização intelectual. Já não precisava de se preocupar em sobreviver e aos poucos, afundou-se no prazer carnal.
Passou do normal para o fetiche, do fetichismo para o sadismo e masoquismo, do sadismo e masoquismo para morbidez. Cada forma de prazer foi-se desvanecendo e a repetição do seu clímax foi-se tornando vulgar. É como fumar 40 cigarros por dia, fuma-se só porque se fuma, sem se tirar nada disso. É como comer 100 chocolates até vomitar enjoado.

Pouco lhe falta agora para a sociopatia e psiquismo. A dor é prazer, o prazer é dor.
Agora, cansado… aguarda… antes de se dissipar na loucura. Sentado no meio do campo aberto, aquece-se nas alaranjadas brasas. A noite vai-se prolongando, projetando e se desenrolando ao seu redor. E ele, sem prestar atenção continua… esperando… A Coisa sabe, já o sabia antes. Por isso, há de aparecer sem ser chamada, pois já o é em seu desejo.

 Uma brisa levanta levemente o fogo e ele ouve atrás de si o Seu suave sussurrar.
– Então?... É tempo. – Diz-lhe.

– Já é mais que tempo. – Responde despreocupado.
A Coisa aproxima-se e pousa a mão no seu ombro. – Não doerá.

– Que importa?... – Aos poucos foi-se sentindo sonolento. Enquanto olhava para o céu, o dia iniciava o seu despertar. O sol erguia-se no horizonte pintando em tons violeta as brancas e leves nuvens. O azul clareava, abrindo as cortinas para o horizonte mágico. O espanto voltou-lhe a bombear no peito, e antes de adormecer falou. – Pára… pára o momento… imobiliza o tempo.