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sexta-feira, 6 de julho de 2012

donzela


surge o sol pela neblina cerrada
ouço as ondas
batem os sons
na madrugada
confundo o azul
o céu
misturo-o na areia da praia
e o branco
o mar
conflui-se no ar

olha, a donzela à janela
rosto vidrado
olhar abstrato
no horizonte de si
oh, espera só mais um pouco
inquieta
teu peito
na saudade de mim

um pássaro que voa
uma,
longa,
brisa
do ar…
a espuma que arrefece na areia de uma onda
há mar e mar
há que ir, e voltar…

terça-feira, 1 de maio de 2012

Complexo


A saliva escorre pelo queixo.
A fome bate nas paredes estomacais.
Dentes amarelos, castanhos, verdes, bafo a vermes.
Guincha naquele quarto, naquele cubículo, meio metro quadrado.
Preso, encurralado.
Quer matar, quer comer, quer foder.
Quer, só por querer…
Sentir a vida do outro a escoar, o orgulho a se esvair, o medo, a morte a subir.
Grunhido após grunhido esporra,
Enche de seiva a masmorra.
Bate, cabeceia, esmurra, planeia.
Naquele espaço, sonha, baixo, o dia da ceifa.

O mundo movesse, gira constantemente, agitadamente, ignorantemente.
Esquecendo-se, mentindo-se,
Nada aberra, no oculto da serra.

Os locais sabem, tremem, rezam, esperam, calam, desesperam.
Protegem-se com o sangue do cordeiro.
Mas, nada pára os guinchos do bezerro negro, nascido da imaculada virgem violada.
Sacodem as árvores, penetram nas casas, enlouquecem a alma.

fujam
fujam
os muros estão a ficar gastos.

ou matem
matem
aclamem-lhe a cólera tingida.

Seus braços, retorcidos, esgadelham as costas com arranhares repetitivos.
Crava as unhas na pele grossa, chagas putrefactas, espasmos estereotipados,
                                                                                             Olhos revirados.
Quer…
Dêem-lhe…
É imortal.
Voltaria,
outra vez,
novamente,

mais e

mais e

fome.

Por isso, matem por ele, dilacerem por ele, cortem-se por ele.
Alimentem os Eus, o Complexo Monstro premente,
Que geme na serra da nossa mente.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Para ti,

Para ti,
A quem nunca mais disse nada,
Perdoa-me
Ter virado costas,
Seguir centrado um outro trilho.
Sou assim, desculpa…
Parece que não me importo,
Parece que me esqueço.
Garanto-te, só pareço.

Lembras-te?
Risos e sorrisos.
Abraços fortes e precisos.
Comunicação abstracta, telepática.
E o olhar,
Repouso de desabafos imprecisos.

Tu,
Como quem diz eu,
Oleador do ego.
Sempre serás mais do que uma emoção.

Para ti,
Sensibilidade que me inflamas,
A quem nunca mais disse nada.
Quando um dia, por acaso, te vir,
Reconhecer-te-ei,
E um simples olá de direi.

Até lá, aqui, comigo,
Intimo Amigo.


quarta-feira, 11 de abril de 2012

Ectoparasita hematófago


O medo é uma carraça que se gruda à pele e me chupa.
Infecta-me com ideias
Parasitas. 

Febres, suores frios, fraqueza, delírios.
Arritmias compassadas,
Artrite e dores inchadas.
Absorve o raciocínio,
Descontrola o instinto. 

Incha guloso e ávido, o carrapato.
Caio árido, por terra fatigado.
Como é que uma coisa tão pequena,
Se apodera assim do sistema.
O espirito lato, crente,
Desilude-se por ver a carne em rente. 

Carraça maldita, feia, troglodita!
Absorves a ilusória arrogância com que vivo,
E mirro. 

Esperança! Esperança!
AHAHAHAHAH!
Um resto de loucura alcançada. 

Procurar, procurar, sobreviver, encontrar-te,
Naquela fissura escura da minha pele.
Pegar numa pinça,
Bicha esquisita, verto-te agora álcool em cima,
Arranco-te, corto-te,
Queimo-te a cabeça,
Agarrada à zona endémica. 

Depois…
Uns paracetamóis, antibióticos e mais uns sais.
Para não pensar, em paraideias. 

Da próxima vez que me saltares em cima, bicho,
O sistema imunológico vai-te reconhecer,
E eu não sofrerei mais, desses teus beijos mortais.
Estarei protegido dessa tua doença vampiresca,
Pelos glóbulos loucos de nascença.



Catarse da morte


Antes que eu morra,
Põe-me um cigarro na boca. 

Não adianta, não vale a pena,
Não chores a me confortar. 

No meu corpo, não me consigo mover,
Vegetativo, trôpego.
Por isso, tens de ser tu a tirar o maço,
A pousar-me o “very-light”, aqui, no lábio.
Acende o isqueiro.

Mas primeiro tens que o montar.
No bolso esquerdo está o  “euta-” ,
No direito o “-nasia”,
Junta os dois que eu inalo… 

Relaaaaaaaaxo 

Tu sabes, tal como eu sei,
Tanatos, ai vem… 

Acompanha-me…. Fica…
Neste fumo que nos amortalha. 

Sente-o
Pela garganta
Escorregando
                        Em
                        Doce
                        Mel
Sua voz bafienta. 

É assim!
É assim que se o enfrenta.
Com uma passa de coragem laça, com um último prazer,
A catarse de morrer!


quarta-feira, 4 de abril de 2012

Insónia



Sete e meia da manhã.
Porra porra porra porra! Vá lá por favor vá lá por favor!
Novamente durmo mal outra vez novamente.
Doí-me o lóbulo frontal corrói-se-me o estomacal ventre.
Não estou descansado e nada me deixa descansar.
Alguém, algo, alguma coisa, faça-me parar.
Mas porque porra quando durmo, me vem sempre à cabeça, não a Vida mas o dia-a-dia?
Porque a Vida é algo muito mais lato, metafisico, abstracto.
O outro é porqu’é simples, e baseia-se no prático.
No entanto, já não sei o que penso, ou o que devia pensar, e confundo-me em sentimentos sobre o que devia raciocinar.
Revoluteio-me, na cama, constantemente me maço, com a almofada.


Entra o sol no meu quarto, destapando as cores que se escondem, e olho para o meu pálido lençol, atentamente, divagando em nada.
Na sua brancura observo um ponto, um ponto que aos poucos se insinua.
Parece-me mexer-se…
Foco-me, nele, e tento entender o que é. O que era suposto não estar cá lá, mas está…
Exalto-me de nojenta repulsa. Uma larva de mosca, gorda, castanha, asquerosa, arrasta-se como uma víscera atrofiada, enroscando-se nas suas espirais.
Meu sistema digestivo contrai-se numa dor enjoativa.
Percepciono um ligeiro formigueiro nas pernas.
Entro em pânico por imaginar o que significará e descubro-mo instantaneamente.
Confusão!, medo!, sufoco!
Compelem-se larvas pela minha pele, mexem-se em buracos na carne dos meus pés, nas minhas coxas, no abdómen, no peito.
Comem-me...
Aceleram, lentamente, a minha putrefacção.


Acordo com um espasmo.
Doí-me o estômago…
Doí-me a cabeça….
Em manhã cedo,
Ainda cansado…


segunda-feira, 2 de abril de 2012

Eu, onde estás?...


Eu gostava…
Que a chuva sempre caísse assim…
Morna dentro de mim…
E afastasse esta…
Melancolia repetitiva. 

Eu gostava…
De não voltar atrás…
E caminhar para onde tu estás… 

Meu Eu fora de Mim…


quarta-feira, 21 de março de 2012

Por ti


Espero por ti,
Não te preocupes.
Estarei lá, naquele lugar
Onde o Sol raia e aquece
E a Esperança sempre se reflecte. 

Lá, ali, aqui
Neste dourado espaço,
Espero sem pressas,
Com um sorriso,
Com um abraço,
Com um riso de regozijo,
Por saber que esperas também
Este destino. 

Tu, que caminhas pela sombra,
Que por razões só tuas escolhes o vento frio da solidão.
Sabe,
Que eu nasço sempre com o Sol,
Quente, para repousares,
Para te amar sem me amares.


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Muros


Eles nunca quiseram construir aqueles muros que os cercam,
Muros que os apertam.
Aos poucos foram-nos deixando entrar,
Sem proteger aquele lugar.

Porque nós sabemos,
E não queremos,
Calar,
Não magoar.

Nós queremos e não sabemos,
E não queremos nunca entender,
Que ali dentro eles são menos que nós mesmos,
São só aquele defeito,
São alguém p’ra mudar.


Nós nunca quisemos construir estes muros que nos cercam,
Muros que nos apertam.
Aos poucos fomo-los deixando entrar,
Sem proteger este lugar.

Porque há quem queira,
E há quem não saiba,
Calar,
Não magoar.

Há quem queira e quem não entenda,
E quem não queira nunca saber,
Que aqui dentro somos mais que nós mesmos,
Somos mais que este defeito.
Somos alguém p’ra amar.